SELFIE: NÃO, VOCÊ NÃO ESTAVA LÁ!

Hoje é impensável ir a um show, evento ou até mesmo para o trabalho sem compartilhar um auto-retrato nas redes sociais. O padrão virou quase que ‘se eu não publicar uma foto é o mesmo que não ter ido’. Entretanto, um vídeo já circulado na internet desde o fenômeno do mobile (que de mobile não tem nada, porque continuamos concentrados no celular, só que com um cenário diferente) me trouxe o paradoxo do título deste texto.

O vídeo é esse aqui:

E essa é a verdade desde o aparecimento das máquinas digitais que substituiu olhares atentos por um visor eletrônico. O fato é que nos preocupamos tanto em registrar, que esquecemos de viver. A cobertura midiática da nossa própria vida tornou-se prioridade. Os ‘espectadores’ de nossos canais recebem e vibram com o momento, antes de nós mesmos.

E isso é ruim? É aquela velha história: ruim com ele, pior sem ele. A ansiedade para divulgar em público um momento é tão grande que, se não tiver como publicar naquele instante, o sofrimento pode ser ainda maior. Como qualquer juízo de valor, a avaliação deve levar em conta o contexto histórico. O investimento financeiro em celulares com internet e aplicativos de fotos é a principal ‘desculpa’ para justificarmos o uso insistente dos aparelhos, onde quer que estejamos. A verdade é que há uma pressão pública do círculo social estabelecido na rede e até mesmo um padrão de comportamento imposto que replicamos mesmo sem perceber.

Recebo visitas constantemente em minha casa e foi só fazer a primeira selfie para ter a cobrança eterna. O dia em que simplesmente esqueci de fotografar a presença de uns amigos (porque o papo estava ótimo), recebi imediatamente a reclamação: “não sei se gostou da nossa visita, nem foto tiramos”.

Mas pra que isso, gente?

Recentemente apresentei minha monografia para o curso de Psicologia (segunda graduação que tem complementado ainda mais a comunicação). O tema (claro) foi Redes Sociais e Processos de construção de Identidade. Para o trabalho, fiz uma pesquisa perguntando a motivação que a pessoa tem em compartilhar algum conteúdo no facebook.

Apenas 7% do público entrevistado disse ‘esperar as curtidas dos amigos’, enquanto 46% disse que compartilha para divulgar informações relevantes para as outras pessoas. De fato, há uma tendência em negar esse desejo subjetivo, até para falar para si mesmo e evitar uma frustração como “mesmo que uma foto não tenha muitos likes, eu não vou ficar triste”. Entretanto, o like é o reforço imediato que motiva a publicar novas fotos. O curtir é a certeza da audiência e a afirmação “sim, eu vi o que você postou”. Se o objetivo maior é se exibir, a foto sem aprovação desestimula novas postagens.

E por aí segue o ciclo vicioso e viciante.

Aonde vai parar? Nem sabemos se vai parar. Vai passar, é claro, como qualquer outra moda. O que eu pergunto é: até isso acontecer, quando vamos viver os momentos de fato?

cinthia Demaria

Diretora de Planejamento.

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