O retrocesso da Folha de Ponto

Fui almoçar com duas amigas hoje. Depois de encher o pandu era hora de ir à livraria, um ritual quase obrigatório da nossa turma – mesmo que a grande maioria das vezes seja só para “dar uma olhadinha” mesmo, sem comprar nada. Mas é uma atividade que demora, no mínimo, meia hora.

Tive que ir sozinha, porque agora a empresa em que trabalham entrou no sistema da folha de ponto, o que pra mim é um “progresso ao contrário”. O que as empresas querem com o tal do bater ponto? Disciplina, engajamento, comprometimento com o labor? Sinto dizer aos empresários de plantão que, provavelmente, eles não estão ganhando nada disso. Muito pelo contrário: estão colecionando funcionários que não têm nenhum outro objetivo na empresa a não ser bater o ponto na hora certa e receber o salário no quinto dia útil.

Entendo que o rush comercial brasileiro rola de 8h às 18h para a grande maioria dos setores. Entendo, também, que para alguns negócios a folha de ponto é a única maneira de mostrar ao Ministério do Trabalho ou qualquer outro órgão que audita uma empresa que os funcionários estão cumprindo as horas como manda a lei. Entendo isso tudo e, por isso, não me manifesto contra o documento em si, mas na forma com que ele é gerenciado.

Por exemplo: no setor em que eu atuo por quase dez anos, que é o de comunicação, a folha de ponto não faz o menor sentido. E peço que você tire cinco minutos do seu dia para que eu possa explicar por quê.

PRODUTIVIDADE NÃO BATE PONTO

Quando me falam sobre marcação de ponto, penso em uma fábrica operada por robôs: o robô começa a trabalhar impreterivelmente às 7h, faz todos os seus serviços de maneira mecânica (com robôs, não tem outro jeito) e, às 17h em ponto, ele desliga. Eles estão programados para trabalhar todas essas horas e, quando findar o expediente, interromperem as atividades. O que não ficou pronto hoje, amanhã fica. Simples assim.

Acontece que a grande maioria da indústria ainda é operada por seres humanos, que precisam ir ao médico, almoçar, fazer xixi, fazer cocô, conversar com os colegas, fazer um lanche da tarde… de vez em quando, por causa de outros seres humanos, as pessoas se atrasam, a luz cai, a chuva aperta na hora de sair do serviço e a galera simplesmente espera mais um pouco antes de ir embora. Isso é o que seres humanos fazem.

E existem, basicamente, dois tipos de seres humanos em idade economicamente ativa e devidamente empregados: ou eles trabalham ou procrastinam.

cabou expediente

Alguns conseguem manter o foco por horas a fio, enquanto outros só conseguem se concentrar por pouquíssimos minutos. Folha de ponto nenhuma muda isso – o que muda é a receita da empresa, que pode estar pagando muito caro por um profissional que, na prática, não rende, mas na maquininha está lá, trabalhando 8 horas por dia.

Eu, por exemplo, rendo muito melhor de manhã. Depois do almoço, haja energia para que eu consiga focar como foco antes do meio dia. Tem muita gente que gosta de trabalhar de madrugada, é bem mais produtivo se trocar o dia pela noite. E quando esse recurso é dado a essas pessoas elas operam verdadeiros milagres que desafiam prazos e deadlines.

Pra completar, boa parte dos funcionários, principalmente no setor em que atuo, podem fazer seu trabalho sem sair de casa. Nada substitui a convivência diária com os colegas para o crescimento da pessoa na carreira, já que é justamente o convívio, a troca de ideias, que deixa o trabalho bem mais divertido e produtivo; mas se a pessoa ficou sem gasolina, atrasou no trânsito ou não está bem do estômago, que mal tem ela passar o dia trabalhando de casa?

O PATRÃO, O CHEFE E O LÍDER

Alguns patrões/chefes vão dizer que não confiam nesse meio de trabalho. Que se a pessoa sabe que vai atrasar, que saia de casa mais cedo. E que bater o ponto religiosamente às 8h vai deixar a pessoa mais disciplinada com horários. Para essas pessoas, eu digo o seguinte: apenas não.

Se você não confia o suficiente na sua equipe que poderia fazer home office e não faz porque você não acha que elas irão produzir, demita quem fez as entrevistas. Ou venda sua empresa. Um chefe/patrão pode até ter suas desconfianças, um líder que visa o bem estar dos funcionários (a.k.a. lucro garantido) sabe que os seus produzirão bem até debaixo de uma tempestade na Ucrânia.

Se você acha que a pessoa tem que sair de casa mais cedo porque foi contratada para trabalhar oito horas por dia pra você começando às 8h, saiba que você vai brevemente perder essa pessoa para alguém que sabe enxergar o novo modelo de gestão de empresas.

Se você acha que vai disciplinar macaco velho com folha de ponto, aí seu caso é patológico: sugiro conversar com a Cínthia, a jornalista/psicóloga do TWM, para resolver seu problema. 😀

E se você acha que eu estou brutalmente errada em sugerir que produtividade não bate ponto, e que a grande maioria das pessoas pode, sim, trabalhar com horários próprios, desde que a profissão permita, e possa, sim, fazer duas horas e meia de almoço para ter mais prazer no restante do dia – e não ficar olhando o ponteiro chegar logo no 6 –, e que eu sou apenas uma mulher latino-americana sem dinheiro no bolso e sem estrada pra falar o que pode ou o que não pode no mundo nos negócios, escute o que Larry Page tem a dizer para você. E, ah, ele é só um dos donos de uma das empresas mais absurdamente rentáveis e respeitadas do mundo…

MAS, LAÍS, A CLT OBRIGA!

“A folha de ponto é obrigatória”: verdade, em partes.

criança

Na real, empresas com mais de 10 funcionários precisam ter a folha de ponto preenchida, mas não necessariamente pelo marcador eletrônico. Ela pode ser feita no papel – que é muito mais fácil de burlar, mas que é também mais fácil e flexível de administrar. Tudo depende dos combinados entre as partes.

Na minha vida proletária tive inúmeros tipos de chefe, de patrão e de líder. Um deles, certa vez, me mostrou a diferença entre os três perfis. Eu estava “apenas” duas horas e meia atrasada para o trabalho, na segunda-feira pós páscoa de 2013, em que o trânsito de BH se transformou em um caos. Fazia menos de dois meses que eu estava na empresa. Assinava folha de ponto. Fiquei preocupada. Mandei diversas mensagens ao superior me desculpando pelo atraso. Ao invés de xingar, perguntar porque eu não saí mais cedo, mandar eu me lascar por “morar mal” ou qualquer outra coisa, o cara me manda a seguinte mensagem: “Relaxa. Essas coisas acontecem!”.

Ali estava um líder.

E aquele foi um dia no qual eu produzi absurdamente – não porque me sentia culpada, mas porque dei um imenso valor à empresa que entendia que o trânsito de BH realmente acontece às vezes, e não tem nada que eu possa fazer para mudar imprevistos. Não fiquei um segundo a mais depois do horário pra “cumprir” o atraso, mas naquele dia eu saí sem deixar uma única pendência na “firma”.

Isso tudo só pra mostrar que bons gestores, bons líderes, entendem que a CLT, por mais bacana que seja, está engessada – e esse negócio de marcar ponto ou ter que fazer extra pelo atraso é coisa do século XX (e estamos no XXI, tem muita gente que esquece que mudamos de século).

Empresas que querem reter seus bons talentos, ao invés de botar um ponto na porta, vão é torcer para que as pessoas produzam os mesmos resultados (ou mais) em menos tempo – ou menos idas ao escritório. Afinal, pensa bem: é menos ônibus, menos conta de luz, menos combustível… e menos procrastinação. Menos gente olhando o relógio pra ir embora. E, definitivamente, menos gente da música do Raul Seixas, se olhando no espelho e se sentindo um grandessíssimo idiota, sabendo que é humano, ridículo, limitado e que só usa dez por cento de sua cabeça animal.

(E aí a gente percebe que também tem chefe que não gosta dos funcionários ouvindo música em seus fones de ouvido. Outra estupidez que fica pra uma próxima conversa, nessa mesma bat-hora, nesse mesmo bat-local.)

Leia também...

Melhores posts

3 Comments

  1. Por fazer parte do assunto, concordo plenamente com você, e adivinha? Agora não preciso mais trabalhar depois das 18h, responder e-mail nem pensar, já bati meu ponto 😉

  2. É isso mesmo! Amei o texto! Líderes buscam motivar os funcionários, ensinar, tirar o melhor dele, com flexibilidade. E não escravizar e burocratizar como a maioria faz…

  3. La, mto bom seu texto!!! Diz tudo que eu penso sobre isso! Infelizmente, na contra-mao do que eu acreditava, a folha de ponto está se expandindo e atingiu o setor público. Desde o inicio de 2014 tbm sou obrigada a preencher manualmente a folha. Só que cumprir horarios nada tem a ver com produtividade e ao invés de tentar monitorar os horários dos servidores, deviam preocupar-se mais com as condiçoes de trabalho fornecidas, pois a maioria nao se sente motivado a produzir diante da atual situaçao de abandono do órgao em que trabalho.

Deixe uma resposta para Mayra Cancelar resposta