Laís e Cinthia - TWM

Pivotando personalidades…

Sou cruzeirense.

Se você me conhece há algum tempo, já deve saber disso. Afinal, até o ano passado eu gastava boa parte do meu dia – e da minha energia – falando de futebol e, especificamente, de Cruzeiro. Também ia bastante ao estádio. Então se você me conhece antes ou durante o boom do Twitter em 2010, com certeza sabe que sou cruzeirense.

Mas se você está me conhecendo agora, vai te dar um pouco de trabalho descobrir pra que time eu torço (aliás, não mais, porque eu acabei de falar). Tenho fotos com camisa no Facebook e de vez em quando dou uma tuitada sobre a situação geral do meu time, que desde o ano passado é bem boa. Contudo, em uma reunião, ou em uma rápida olhada nas minhas redes sociais, isso não está explícito.

E a isso eu dou o nome de “esperteza digital”.

Houve um tempo em que eu usava as minhas próprias redes sociais para falar de tudo o que eu queria e sair dando pitaco em tudo o que eu queria, sem me preocupar com as consequências. Isso mais ou menos até, em 2012, eu e a Cínthia pensarmos uma nova possibilidade comercial (exatamente essa que hoje você conhece como Tea With Me). O foco era o mercado digital. Aquele mesmo do qual eu sempre fui heavy user e onde falava tudo o que eu queria, sem papas na língua.

Mas eu vi que estava fazendo isso errado. E decidi “pivotar” minha própria personalidade.

Veja bem: estou em Belo Horizonte, a capital de Minas Gerais. Em Minas, três clubes de futebol rondam as paradas de sucesso: o América, o Atlético e o Cruzeiro. A chance de eu me deparar com um potencial cliente atleticano ou americano nas estradas da vida é de 33,3% para cada, se minha matemática não me engana (sou péssima nisso).

E se eu continuasse sendo a torcedora fanática que, ai, tem preguiça de outros clubes porque o meu time é isso e aquilo e aquilo outro, seria ~batata~ que, daqui pra frente, eu não conseguisse lidar corretamente com clientes-torcedores de outros clubes. E nem haveria a menor chance de eu conquistá-los pelo que vale a reunião, que é a minha capacidade de fazer comunicação. Afinal, se o cara me adiciona no Faceburguer e logo lê um #chupaoutrotime, ele não me contrata. #fato

Pivotar é preciso

No mundo das startups, “pivotar” significa mudar o rumo do seu negócio depois de ver que o mercado que você mirava não era o melhor ou quando você não consegue validar a sua hipótese porque, bem, ninguém está realmente interessado naquele produto que você tinha certeza absoluta que mudaria o mundo.

Acontece, geralmente, em 11 de cada 10 empresas que adentram o mercado, principalmente tecnológico. Pivotar é preciso – e é normal.

E quando eu pivotei a minha própria personalidade, saindo do estigma de torcedora fanática do Cruzeiro para uma pessoa “normal” nas redes sociais, foi porque eu percebi a deixa que o mundo me deu: eu estava prestes a abrir uma empresa de comunicação digital. Em Belo Horizonte. Querendo ser cada vez mais reconhecida como profissional de marketing. Precisando gerar o sentimento de simpatia – e respeito – nas pessoas. Era assim que eu ganharia a vida daqui pra frente. E, sendo sincera, ser torcedora de futebol nunca me deu um real a mais (inclusive, me tirou muitos dinheiros).

Sei que tem gente boa por aí ganhando grana, seguidores e admiradores sendo tenaz torcedor, jogador ou qualquer outra coisa relacionada ao esporte – às vezes, a opinião de alguém na rede vale mais do que a de alguém que tem pós-doutorado no assunto, e isso é a coisa mais normal no universo. Todos estão de parabéns por isso. Mas, no meu caso específico, mandar algumas pessoas se perceberem em lugares menos agradáveis do corpo humano não me faria ganhar dinheiro, prestígio e nem reconhecimento por aquilo que eu sei fazer.

A “Estratégia Taiti”

Pra caber nas redes sociais e mudar a percepção das pessoas sobre mim vi a deixa perfeita em 2013, quando o Taiti participou da Copa das Confederações, não ganhou absolutamente nada e, ainda assim, foi a seleção mais simpática da competição. Aí, criei meu #jeitotaiti de torcer, sendo cada vez mais simpática e lúcida nas redes sociais, principalmente com os rivais.

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E o #jeitotaiti ficou ainda mais visível quando, tempos depois, o Atlético foi campeão da Libertadores e eu fiquei super de boa nas redes sociais. Eu finalmente tinha “evoluído” socialmente, certo? (PS: não pensem que eu não quis mudar de BH por isso, mas a sensação durou só cinco minutos porque, hey, eu me adaptei.)

Mas ainda faltava uma coisa: parar de focar meus principais assuntos online em polêmicas acerca de futebol. De lá pra cá, tento não falar quase nunca do tema. Só quando eu não posso realmente perder a brincadeira ou quando quero suscitar alguma discussão mais profunda nas redes do que “meu time é melhor do que o seu”. Também falo quando vejo um case bacana, que merece ser compartilhado, como as diversas manifestações antirracismo, homofobia e machismo – coisas que ainda vemos aos montes nos estádios de futebol. E, na parte financeira, apesar de continuar sócia do meu clube do coração, não gasto um centavo além do que eu posso com isso. Se eu tiver a grana pro ingresso, oba! Se eu não tiver, paciência, vamos esperar o próximo mês.

Meu Klout caiu, é claro, porque minha “audiência particular” queria que eu desse barraco sempre que preciso. No começo, doeu, mas depois eu percebi que essa não era a audiência que eu precisava. #pivotaaudiência

Há de ser tudo da lei

Veja bem: eu não deixei de ser cruzeirense. Aliás, fico muito feliz por meu time estar na liderança e quero muito que ele seja campeão novamente, mas não direciono a minha vida social digital para esse caminho, apenas. É preciso inteligência emocional para entender que, às vezes, você tem que esconder seus monstros dentro do armário quando você está disposto a dar o seu “melhor eu” todos os dias, no mundo virtual.

Como diria Raul, “faça o que tu queres, há de ser tudo da lei”. Mas se seu ideal é trabalhar com sua imagem na internet, tenha um pouquinho de cuidado – e muita inteligência emocional.

Ter uma mãe atleticana e um namorado atleticano me fizeram “maneirar” nos xingamentos e até atingir um nível tal que, hoje, xingamentos não são nem mais necessários. Me sinto idiota quando brigo com alguém por causa de futebol. Apesar de ter perdido muitos pontos no Klout depois de ter cortado o futebol da listinha de prioridades, sou uma pessoa mais feliz e mais bem relacionada. E consegui, também, saber melhor como filtrar as pessoas que me cercam: será que elas também não estão precisando pivotar um pouquinho a personalidade?

Ah, e a conclusão dessa história é que Darwin estava certíssimo: depois do que conquistei, e continuo conquistando, agora com o TWM, fica bem claro que sobrevive não o maior, nem o mais forte, e sim quem se adapta – principalmente no fantástico mundo das redes sociais pessoais.

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4 Comments

  1. Texto super interessante, Laís. E realmente concordo que algumas coisas não precisam ser faladas nas redes sociais. Eu, também cruzeirense, já me policio demais em relação ao time, só posto quando é algo realmente relevante, também sem xingamentos.
    Mas ao mesmo tempo que acho bacana esse polimento, me pergunto se “deixar de fazer” seria bacana, pois você acaba deixando de mostrar um pouquinho de quem você é por pura etiqueta profissional. Acredito que as redes sociais, em especial o Facebook, permitem um bloqueio correto de diferentes grupos de relacionamento: trabalho, amigos, conhecidos e, porque não, inimigos sociais. Dessa forma, acho que dá para direcionar o tipo de postagem para cada público também…
    Em todo caso, ótimo texto e ótima reflexão!
    Desejo sucesso na nova vida profissional 😉
    Um beijo,
    Gabi

    1. Gabi, o ideal, pra mim, é “pivotar” pro bem, tipo: não perder a identidade. Ser cruzeirense é algo do meu ser, mas não algo que me define, né? O que me define é meu bom humor, minha alegria de viver, o que eu estudo, o que eu sei e toooodas as coisas que eu gosto, e não apenas uma. No meu caso, eu ficava marcada só por isso… mas, também, eu era chata mesmo. :p

      O negócio é achar o equilíbrio. Continuo sendo feliz com o time, mas gasto mais meu tempo falando de coisas que vão ser de mais relevância pra minha rede de contatos do que só pra mim mesma. :p

  2. Mandou bem Laís :o)
    compartilhei no face, mas nao consegui te marcar sei lá por que.

  3. Muito bom o texto Laís! Já tinha pensando nisto um pouco, mas me fez refletir um pouco mais ainda, quem sabe paro de ser chato nas mídias rs.

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