Caderno de ideias

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Os estágios virtuais do luto

Tinha preparado para a semana passada um texto sobre como as redes sociais receberam a notícia da morte de Robin Williams quando, exatamente no dia seguinte, o Brasil ficou perplexo com a morte do candidato à presidência da República, Eduardo Campos.

Quando começaram a chegar as notícias do acidente com o avião de campanha de Eduardo Campos, o Brasil inteiro ficou em choque – e a explicação é simples: uma perda como essa gera uma sucessão inédita de fatores sociais, econômicos e políticos em todo o país. Bastou-se confirmar que quem estava no avião era um candidato à presidência que, quase que instantaneamente, a Bovespa registrou queda, os partidos políticos começaram a refazer suas estratégias de campanha e os brasileiros começaram a se perguntar as causas da tragédia. Em um contexto como esse, teorias da conspiração não soam só possíveis como, até, parecem doces.

Todos querem acreditar que a fatalidade tem uma explicação. E a internet retrata perfeitamente a necessidade de pertencimento que todos os cidadãos têm diante de um fato como esse.

Sofrer ou idolatrar?

Há uma dúvida que paira sobre as postagens incessantes em torno do ser que acaba de virar mito e se eternizar no tempo. De repente, todo mundo ficou sem candidato, porque só tinha o Eduardo Campos para votar – vide a aprovação da candidata Marina Silva que, se disputasse as eleições hoje, ganharia com folga no segundo turno.

Portanto, não é que as pessoas sofrem pela pessoa que morreu, como se fosse um luto pessoal de alguém próximo. Elas se mobilizam, se comovem e são coagidas pela necessidade de pertencimento ecoado publicamente. É como se ‘o não me manifestar faz de mim um ser fora e contra a discussão’. O luto coletivo, como é conhecido, envolve e humaniza a personalidade em questão como ser idôneo, puro e heroico, gente como a gente, mas diferente por simplesmente ser.

Tirei alguns prints do G1 nos dias subsequentes à morte de Eduardo para mostrar que, em dado momento do tempo, toda a população busca viver esse luto.

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E, como o mundo não para de girar, no dia 17 de agosto, data do velório e sepultamento de Campos, as pessoas, ainda querendo saber mais sobre o acidente, também começam a buscar outras notícias – boas ou ruins, mas que coloquem o sentimento da nação nos eixos e digam: o pior já passou. Pelo menos até outubro…

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Mas até quando, Brasil?

Numa avalanche de informações, como fica o papel dos mitos modernos? Será que ainda existirão grandes mitos a serem lembrados por várias décadas? Em 1990 havia uma identificação com o cara da TV, mas, hoje, eu quero (e posso) ser o cara da TV.

São raras as famílias que tiram do ar perfis de pessoas que já morreram. Os sentimentos estão cada vez mais passageiros. Não há tempo a perder. Um assunto midiático, inclusive uma morte, é comentado por no máximo uma semana na internet. Se passar disso, já fica velho, já tem outras pessoas morrendo e outras coisas acontecendo. O caso só volta a ter notoriedade se tiver uma super revelação a ser feita.

Portanto, não é caso de dizer que não haverão mais mitos a serem lembrados por todo o sempre, mas sim, contextualizar as mortes. Por isso não se vê mais grandes mitos. Hoje é difícil idolatrar alguém/algo por um bom tempo, sem não admirar a vida de mais 200 pessoas na rede. Isso é ruim? Não necessariamente. São outros tempos, outras mídias e a preocupação maior é a necessidade infinita de se manter atualizado.

 

(PS: esse texto, escrito a quatro mãos, conta muito com o ponto de vista da Cínthia, nossa social media/psicóloga que estudou por toda sua vida acadêmica a relação da morte com as redes sociais (virtuais ou não). É dela o blog Da Morte ao Mito, que vale – muito – a pena ser devorado, principalmente por quem gosta de música.