Nessa Black Friday, faça como eu: não compre nada

A primeira e única compra que já fiz com o selo Black Friday foi aqui no Brasil mesmo, na Black Friday de 2012. Foi um MacBook Pro, que agora utilizo para escrever esse texto. Uma bela aquisição, diga-se. Namorei o equipamento por três meses, até que o atendente me falou: “vamos fazer uma promoção na Black Friday. De R$4.000 ele vai pra R$3.200”.

O que eu fiz? Acalmei a periquita e aguardei a Black Friday, onde comprei o tal equipamento com R$800 de desconto. Para mim, uma promoção super válida e palpável, visto que eu realmente acompanhei o preço da coisa e dei a cartada final naquele longínquo dia de novembro de 2012.

De lá pra cá, sabe o que mais eu comprei na Black Friday? Nada.

Sobre o dia, culturalmente falando, ele faz sentido lá nos EUA – e meu sonho de vida é estar por lá qualquer dia desses numa sexta-feira negra (pra quem já esteve em Dublin no St. Patrick’s Day, isso aí é fichinha). Acredito de coração que vou conseguir comprar muita coisa com desconto. Vamos juntar dinheiro pra gastar dinheiro lá, então.

Aqui no Brasil a data tenta fazer sentido comercial, assim como enfiar o dia dos namorados lá pra junho porque, se não fosse por isso, junho seria um mês morto – e fevereiro, que é o dia do Valentim do amor, já tem carnaval e ainda vem seguido de páscoa mais pra frente. Estamos abarrotados de compras.

Porém, um Black Friday no Brasil vai ser doido quando for tipo Black Christmas: no dia 27 de dezembro, ou 30, ou 2 de janeiro, tudo cai. TUDO. O preço de tudo vai abaixo porque, bem, quem tinha que comprar superfaturado pro Natal e Ano Novo já fez isso. Em janeiro todo mundo entra em liquidação, então partiu fazer uma liquidação absoluta. Deixar o povo doido. Movimentar a economia insanamente. Ficar absurdado com taxas de juro e inflação. Bora estocar. Bora comprar roupa branca a 15 reais. Bora consumir, consumir, consumir. E bora comprar meus presentes de aniversário, que é no dia 28 de janeiro.

Digno, certo?

O consumo desenfreado que toma conta dos países que praticam corretamente a Black Friday não vem a ser saudável, mas é “entendível”. Se você pegar qualquer pesquisa aí feita por universidade de Londres (já reparou que tudo quanto é pesquisa, principalmente inútil, é feita lá? Por essas e outras, amo Londres) vai ver que no fim de ano o povo tira mesmo o escorpião do bolso. A galera quer consumir. E quer consumir produtos.

Se eu lançar uma Black Friday TWM dando 50% de desconto em qualquer contrato de serviço fechado hoje, por exemplo, ainda assim não vou ter o retorno esperado, porque o que o cliente da Black Friday quer é sair com o produto nas mãos. A TV dos sonhos. O tênis tão esperado. Aquele vestido deuso que você vai usar no próximo casamento. Ou até o seu próprio vestido de noiva.

Aí, já entramos em outro “problema” da BF brasileira: a falta de estoque. Ou o “vou te entregar daqui a 20 dias úteis”. Amigo, eu te respeito, mas eu quero AGORA. Ou, no máximo, semana que vem. Você já teve pelo menos três black fridays mal sucedidas para aprender a lição. Aprenda.

Tudo isso, minha gente, para dar uma sugestão a todos vocês, como

1) pessoa que adora consumir coisas em promoção e

2) comunicadora que trabalhou por quatro anos em uma organização de defesa do consumidor: nesse Black Friday, não compre nada. Se você não acompanhou o preço daquele produto que você quer tanto comprar, não compre. Se você duvida de que o desconto na TV é real, não compre. Se o cara te pediu 80 dias para entregar, não compre – ou compre no boleto, que te dá a opção de mudar de ideia até a data de vencimento (dica maravilhosa do Maurício Zane).

Se você não precisa daquilo, não compre. Se seu orçamento vai amanhecer no sábado mais black do que essa Friday, não compre. Apenas deixe a “grande oportunidade” passar, sem rancor ou sem medo, por dois motivos muito simples: se você esperou até agora para comprar, isso não é vital para você (o meu antigo computador, por exemplo, funciona até hoje…). E o segundo motivo é: desço o morro dando cambalhota se dentro de três meses, contados de agora, o preço desse produto (principalmente eletrônico) não abaixar pelo menos por uma semana. Inclusive, aposto R$10 que ele vai abaixar em janeiro.

Ou, melhor, já que é Black Friday, aposto R$3. Nesse dia tão importante, até as dívidas podiam vir com 70% de desconto – que é um real desconto, diga-se de passagem.

#ReflitaBanco

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